12 de abr. de 2008

Ofélia

Ufa! Até que enfim estou tendo um tempinho para escrever aqui. Bom, na verdade estou usando o tempo em que deveria estar fazendo o meu trabalho (que é para segunda), e estou atualizando este espaço meu, que já estava sentindo a minha falta. Ou será que é o conrário? Ou os dois? Bom, lamento muito não ter escrito antes, mais precisamente ontem de madrugda, logo depois de ter assistido à peça Ofélia em Off, pois não conseguirei agora expor todo aquele rio de sentimentos que me domou.
A peça estava em cartaz no Parlapatões e foi montada pelo grupo de Teatro de Alvenaria. Disse estava porque ontem foi a sua última apresentação, sexta a meia noite. A texto da peça era uma junção de Shakespeare, Baudelaire, Rimbaud e Goethe, não precisa pedir mais nada, né? Bom, sou suspeita porque adoro todos estes brilhantes escritores. a peça se inicia com o lindo poema Ofélia de Rimbaud, utilizando para isso imagens gravadas projetadas numa tela ao fundo do palco. No começo estranhei um pouco todo esse recurso audiovisual, principalmente o uso do microfone feito pela Ofélia de preto (as outras estavam todas de branco), mas depois tudo isso fez sentido. A peça abordava a personagem Ofélia da peça Hamlet de Shakespeare, mostrando o universo feminino, indo do amor à loucura, solidão e finalmente morte. Confesso que em algumas cenas tive que chorar, e quase me entreguei ao meu completo desespero, pois todo aquele texto mais do que poético mexeu com as minhas entranhas e eu pensei em coisas que deixara de lado, meio inacabadas. Tive que me controlar para não sofrer o mesmo sofrimento de Ofélia, e isso tudo foi lindo! A cena 11 - Inspiração, foi a mais linda, poética e emocionante de todas! Só por ela a peça já valia a pena. Com imagens projetadas ao fundo, uma das atrizes subiu nessas cordas de circo e pindurada dançava o texto que era dito pelas outras, formando uma imagem tão bela que ao mesmo tempo que toda aquela tristeza era revelada, sentíamos um conforto no peito, por conseguirmos tirar deste sofrimento os momentos mais poéticos de nossas vidas!
A crítica não era favorável à peça, mas eu não estou nem aí, gostei da peça, e adoraria vê-la de novo! Claro que há pontos que poderiam ter sido melhores, mas só o texto e aquela cena que já descrevi acabam por compensar qualquer falha que houvesse.
Ai, como eu queria ter escrito antes, logo depois que cheguei em casa, porque estava envolvida num sentimento que agora não consigo expresssar. A peça me fez pensar em muita coisa.
Se ela voltar para os palcos algum dia, recomendo que vejam.
Deixa-los-ei com o poema inicial, para que possam ser beliscados por essa poesia bela. Espero voltar mais cedo aqui e discutir outras questões que me angustiam. tenho tido boas idéias, o que me falta é tempo. E isso, na verdade, é a maior mentira que existe.

Ofélia
Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus...
- Longe, no bosque, o caçador chamandoo a caca...
Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos; toda noite ela repassa
À brisa a romanca que em delírio murmura.
Beija-lhe o seio o vento e liberta em corol
aOs grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o caniço à fronte sonhadora.
Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda; em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um vôo incerto...
- De astros dourados desce um canto miisterioso...

II
Morreste sim, menina que um rio carrega
,Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve !
- É que algum vento montanhês da Norueega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;
- É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.
- É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
- E em manhã de abril, certo cavalheirro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.
E aí o céu, o amor : - que sonho, que pobre louca !
Ante ele eras a neve, desmaiado à luz;
Visões estrangulavam-se a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis !

III
- E o poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.
(Arthur Rimbaud)

Um comentário:

Fernanda Bello disse...

Ai amiga... lindo. Inadiável...
Se voltar, vou assistir de novo com você.
Vou até fazer aulas de tecido, assim que tiver dinheiro. rsrs.
AMOTE.
Beijo!