O telefonema
A jovem donzela, dessas de contos de fadas, de pele clara e cabelos escuros; de alma nobre e coração bondoso; de sonhos doces e alegria generosa, esperava o telefonema do jovem cavaleiro, desses de contos de fadas, tão nobre quanto a honra permitia, corajoso e destemido, alto, belo e forte, como mandava o figurino.
A jovem donzela, então, banhou-se e perfumou-se, estava com o coração apaixonado leve como uma pluma. Escolheu seu melhor traje, um lindo vestido que só usava em ocasiões especiais, e ficou a esperar pelo telefonema do jovem rapaz. Ainda era cedo, tinha tempo. Ele telefonaria.
Então a donzela recostou-se na cama macia de travesseiros ainda mais macios, e ficou esperando o telefonema do jovem rapaz, com o telefone ao seu lado.
Adormeceu.
Um sono intranqüilo de espera. E quando despertou, continuou esperando o telefonema do jovem rapaz. Nenhuma ligação perdida.
As horas foram se passando, e a donzela deixou-se ficar lá, deitava onde estava, sem fazer mais nada, pois disse que esperaria o telefonema do jovem rapaz.
Aos poucos seu coração começou a ficar mais pesado. O perfume já perdera seu cheiro, e o frescor da pele recém lavada já não era mais o mesmo.
Mas iria cumprir com a sua palavra e esperar. Ele haveria de ligar, uma hora. Um dia. Prometera, e todos sabem que as palavras são poderosas nos contos de fada.
A jovem donzela já não tinha mais o mesmo entusiasmo de antes. Seu rosto agora era opaco e duro. As expressões mais embrutecidas pela espera. Mas não era tanto a espera que machucava mais o peito da jovem donzela. Era a certeza, cada vez mais inegável, do sonho perdido, da vontade interrompida.
Recusou-se a aceitar essa dolorosa realidade, permitindo-se enganar-se com mais horas de espera. Olhou o telefone. Muitas horas já haviam se passado. O tempo voava a galopes de hipogrifos.
A jovem donzela deitou a cabeça sobre os braços e adormeceu mais uma vez na tentativa de congelar o tempo. Antes mesmo que seus olhos se cerrassem de vez, uma atrevida lágrima escapou de seu olho esquerdo e alojou-se por cima do nariz.
E assim como o coração da jovem donzela, petrificou-se sem mais demora. E ela nunca soube se o jovem rapaz telefonou.
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