1 de mai. de 2011

Conto

A torre verde-rubra

Queria ser princesa. Essa foi a resposta que Anabela deu a sua professora da quarta série, quando indagada sobre o que queria ser quando crescer. Ao som das risadas e chalaças dos companheiros de classe, Anabela não se importou e assentiu com a cabeça ao olho questionador e surpreso de sua professora. Por esta resposta a educadora, de mais de 15 anos de profissão, não esperava.

Ela não queria ser princesa pelo poder. Sabia que viviam numa República e, não queria ser princesa pelas prerrogativas do governo monárquico. Queria apenas fazer parte daquele mundo fantástico que via nos filmes infantis e nos livros que sua mãe lia para ela todas as noites, desde muito pequena.

Aquele mundo onde poderia estar resguardada. Protegida, a espera de seu príncipe encantado e do “felizes para sempre”.

Mas uma princesa não pode existir sem seu castelo. E Anabela fez surgir daquela massa moldável colorida, uma linda torre verde e vermelha, para ser a sua morada. Não fazia questão do castelo todo, muito espaço para o nada. É só da torre que se precisa. É na torre que a princesa espera o resgate do amado. No cativeiro que a princesa se realiza, cumprindo o destino traçado desde seu nascimento. É onde se passa a ação dramática da história; nenhum livro conta o que vem depois.

Mas você, leitor, deve estar se perguntando, por que Anabela preferia a espera? Porque da mesma forma que o alívio de liberdade após descalçar aquele sapato apertado só é acentuado depois de horas de sofrimento contido, o “felizes para sempre” se torna grandioso quando espera-se detalhadamente por ele.

A doce menina passou a brincar com aquela torre verde-rubra todos os dias. A princípio, era pequena e delicada. Mas Anabela passou a trabalhar na torre sempre que possível, de modo a ampliar a sua morada. Semanas se passaram até que a menina pudesse adentrar a torre construída e, nela viver. Abriu espaço em seu quarto e nele sedimentou sua nova obsessão. A torre tinha somente espaço para ela, com pouquíssimas folguinhas. “Um dia vou ser princesa”, repetia esse seu mantra, e estava convencida de que sua vida seria um mar de rosas. Com direito a cavalo branco e príncipe encantado.

O tempo passou, Anabela se esqueceu dos amigos de rua e dos coleguinhas de bairro. Não era mais vista brincando pra lá e pra cá.

Solitária foi-se vivendo. Alheia ao mundo e ao tempo. Com sua coroa de arame plumada e sua manta de lençol, dedicou-se tanto àquela existência na torre, que um dia, de tanto que a torre participou de sua vida, acabou por fazer parte inseparável da torre. E com expressiva solenidade, seu coração parou de bater, endurecendo-se, enquanto sua pele transmutava-se em vermelho e verde.

Por Karina Zichelle

15 de abril de 2011.

3 comentários:

Blower's Daughter disse...

Lindo conto!^^

Acho que ando vivendo numa torre tb...

Bjokas, sister!

Artur Gelumbauskas disse...

Que metáfora...
Beijos, moça!

Tally M. disse...

que lindo!!

acho q eu tb quero ser princesa... rs