25 de jul. de 2011

Anjo ou demônio?

Seus olhos eram feitos do mesmo material do sorriso de Deus.
Quando nasceu, todos os anjos banharam-na com toda a pureza que já fora criava no mundo. Era um ser divino, embora feita humana. Nascera nos céus, numa explosão de amor e sabedoria. Lá ela era a personificação do amor de Deus. Mas não podia viver nos céus. Fora concebida para uma missão e por isso desceu à Terra.
Quando acordou com a brisa do mar que invadia o quarto de sua casa terrena, não se lembrava mais da sua origem divina. Mas não era como os outros, um ser humano comum. Possuía ainda, a beleza dos céus.
Aqui, seus olhos guardavam todo o mal da humanidade. Pois quando a beleza é extremada, converte-se em pecado. E assim, ela já nasceu pecadora. Pois nasceu com os olhos capazes de ferver o sangue de qualquer mortal que se aproximasse dela. Já estava condenada.
Deus acreditava que os homens estavam perdidos em sua solidão d'alma. Seus filhos imperfeitos, precisavam confrontar sua própria escuridão. Apostara com o Diabo que conseguiria resigná-los. Por isso criara aquele anjo em pele de mulher, capaz de redimir e salvar.
A fórmula da salvação parecia ser simples. Todos os anjos acreditavam no sucesso da sua missão.
Ela atraía as almas mais sofredoras. Todos os homens despertavam-se a sua passagem.
Ela possuía a capacidade de amar como ninguém poderia compreender, e na paixão que despertava nos homens, residia a chave da salvação.
A princípio, todos eles, um de cada vez ou vários ao mesmo tempo, apaixonavam-se avassaladoramente, e ela tinha a qualidade de retribuir com o mais sincero e devotado amor.
E com o tempo, a solidão da alma dos sofredores, apaziguava-se, e a mente iluminava-se.
Mas os homens, que não foram criados para aguentar o amor em todo o seu esplendor, não suportando toda a carga daquele sentimento. Perdiam-se nos beijos e nas carícias, com uma profundidade mais assustadora que os abismos dos infernos, e o medo, o pai gerador da humanidade, começava a tomar conta de seus corações.
Culpa do Diabo, esperto como era, que envenenava os corações dos homens. E eles, como marionetes, começavam a vê-la como um demônio, um ser que ao dar o prazer do conhecimento, tentava-os na luta contra a sua própria escuridão.
E assim, todos a abandonavam, e para que não fossem condenados novamente, ela deixava uma parte de si com eles.
Era nesse sacrifício que residia a cura real da qual fora criada para entregar.
Deus já sabia disso. Sabia desde o começo que a salvação não veria no despertar do amor nos homens, mas sim no arrancar da alma daquele anjo belo, que cedia seu ser sem resistência.
Há quem diga que Deus fora cruel demais, ao criar uma criatura tão pura para o sofrimento eterno.
Porque a cada novo amor rompido, ela sangrava cada vez mais. A liturgia tinha que ser sangrenta. E a cada ferida a humanidade escapava da condenação final.
Esse era o único jeito de vencer a aposta.
Ela iria morrer, uma hora ou outra; na Terra seu corpo era efêmero. Incompreendida pelos humanos, tida como um demônio, aquele anjo não poderia mais subir à sua morada natal.
Nasceu para padecer e para morrer.
Nem ela nem Deus podiam fazer nada para impedir. Sua única chance residia nas mãos daqueles que salvava. Se um dia o homem transgredisse a si mesmo e rompesse com o medo que o dominava, compreendendo a natureza divina daquela mulher, então aí ela poderia viver.
Mas essa era uma esperança que nem Deus podia guardar...

2 comentários:

Renata Roquetti disse...

Ká,vc adoraria a pesquisa, os escritos, a dramaturgia, a encenação que fiz numa peça sobre A Igreja do Diabo! Vms conversar um dia sobre isto! Um beijo e saudade,

Fernanda Bello disse...

Divino!