12 de nov. de 2007


Ao leitor


Sempre tolice e erro,culpa e mesquinhez

Trabalham nosso corpo e ocupam nosso ser,

E aos remorsos gentis, nós damos de comer

Como o mendigo nutre a sua sordidez.


Frouxo é o arrependimento e tenaz o pecado,

Por nossas confissões muuito éo que a alma reclama,

Voltando com prazer a um caminho de lama,

Crendo lavar as manchas com pranto amaldiçoado.


Junto ao berço do Mal é Satã Trismegisto*,

A nossa alma a ninar tão longamente invade,

Do precioso metal desta nossa vontade

Este alquimista faz um vapor imprevisto.


É o Diabo que nos move através de cordéis!

O objeto repugnante é o que mais nos agrada;

E do inferno a descer sempre um degrau da escada,

Vamos à noite errar por sentinas cruéis.


Tal como um libertino que beija e mastiga

O seio enrugado de velha vadia,

Furtamos ao acaso uma oculta alegria

Que esprememos assim como laranja antiga.


Espesso, a formigar como um milhão de helmintos,

Ceva-se em nossa fronte um povo de avejões,

E quando respiramos, a Morte nos pulmões

Desce, invisível rio e com sons indistintos.


E se o estupro, o veneno, o incêndio e a punhalada,

Não puderam bordar com seus curiosos planos

A trama banal vã dos destinos humanos,

É que nossa alma enfim não é bastante ousada.


No entanto entre lebréus, panteras e chacais,

Macacos e escorpiões, abutres eserpentes,

Os monstros a grunhir, ladrantes ou gementes,

Que são o nosso vício em infames currais,


Um existe mais feio e mais perverso e imundo!

Embora não se expanda em gestos ou em gritos,

De bom grado faria da terra só detritos

E num simples bocejo engoliria o mundo.


É o tédio! - os olhos seus a chorar sempre estão,

Fumando o seu huka**, sonha com o cadafalso.

Tu o conheces, por certo, o frágil monstro, ó falso

Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!


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* Cognome do deus grego Hermes e que os gregos davam também ao deus egípcio Tot. Trismegistos (do grego tri, três vezes, e megistos, máximo), isto é, máximo como sacerdote,como profeta e como rei.


** Cachimbo


(de As Flores do Mal, Charles Baudelaire

Tradução: Pietro Nassetti)

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