13 de ago. de 2010

Quod me nutrit me destruit ou Porque me matam aos poucos...

Recorrências. Essa era a palavra que queria encontrar. Quando fazemos algo, quando nos expressamos artisticamente ou mesmo no cotidiano, acabamos imprimindo uma marca nossa, um conjunto de parâmetros que de uma forma ou de outra acabam por assinalar um traço, um estilo, próprio que nos distingue dos outros. Por mais que não sigamos uma única forma e estrutura de expressão e nem tomemos por bases pensamentos únicos, dogmáticos, já que acredito nas diversas interpretações e possibilidades de se ver e encarar o mundo, acabamos sempre tendo alguns pontos de nosso "Eu" impregnados nas coisas que fazemos, nas ações que conduzimos e nos pensamentos que expressamos por meio dessas ações. Seja apontados por nós mesmos, seja por intermédio de outras pessoas.
Por exemplo, um dos meus traços é a prolixidade, a forma de escrever (muitas vezes também presente na fala oral) de maneira a expressar mais detalhadamente uma idéia. É só tomar essa introdução mínima que acabo de fazer para explicitar a escolha da palavra "recorrências".
Pois bem, chega de desvios pseudo-filosóficos, e vamos para o assunto que anseio extirpar nas próximas linhas...

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Uma energia. Nitente.
Um força interna capaz de explodir-se em milhões de estrelas sugar qualquer buraco negro que encontrar pelo caminho. Uma paixão incessante. Uma volúpia pela vida, pelo amor, pela arte capaz de arrancar-lhe do peito uma energia vital estrondosa que não sabe alojar-se lá; necessita transcender. Ela não sabe como lidar com esse pulsar. Ela não sabe ser outra senão essa intensidade. Adrenalina nas veias, ela só sabe cair de cabeça, se jogar de corpo e alma, se doar e cair em milhões de cacos de vidro quebrados, pontiagudos, cristais de suas lágrimas. Caótica-autodestrutiva. Porque essa é ela! Porque essa sou eu!

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Ainda que por muitas vezes camuflada num ar tímido, mas cujo olhar não esconde esse turbilhão de sua alma. Esse "olhar penetrante" tornou-se seu símbolo máximo (ainda que hajam outros, escondidos por aí, mais quietinhos). Olhos que já foram chamados de "olhos de ressaca", "olhos de cigana oblíqua e dissimulada", "olhos de medusa", "olhos de esfinge", definições estas que soam poéticas, lindas, desejáveis, invejáveis, são além disso, um legado de dilaceração. Sim. Pois a cada entrega, segue-se um destino trágico.
Pois veja o significado de cada definição.
"Olhos de ressaca" e "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" referem-se à personagem Capitu de Dom Casmurro. Quer elogio mais lindo que que o de possuir olhos que são como a ressaca do mar? Que ao ser mirado traga para si o seu admirador. Olhos de cigana oblíqua e dissimulada, em precisa de comentários. Perfeito se não fosse triste seu fim. É só lembrar o que acontece com Capitu no final do romance.
"Olhos de medusa". Lindo! Olhos que paralisam aqueles que ousarem cruzar seu caminho. Olhar penetrante que faz com que a pessoa perca os sentidos, a reação. Mais uma vez, poético, lindo se não fosse o seu fim. A Medusa é tida comumnente por um mostro, mas, algumas versões do mito a tomam como bela, e uma versão romana conta que na verdade Medusa teria sido originalmente uma bela donzela sacerdotisa do templo de Atenas, que despertava o interesse de muitos pretendentes. Um dia ela teria cedido às investidas do deus dos Mares, Poseidon, e deitado-se com ele no próprio templo de Atenas, o que despertou a ira da deusa, que a castigou transformando-a num monstro com cabelos de serpentes e cujo olhar transformaria qualquer mortal em pedra. Pois bem, seja qual for a versão do mito, o certo é que no fim, a Medusa é morta pelo heróis Perseu.
"Olhos de esfinge", aquele olhar misterioso, enigmático. Mas para encurtar a ladainha, adivinhem qual o final dessa criatura na mitologia grega?

Será essa minha sina? Será que pela audácia de sentir-se viva, intensa, é preciso pagar o doloroso e virulento preço da destruição brutal, ainda que vá-se morrendo aos poucos, até que não reste mais do que um peito aberto, dilacerado em meio ao sangue, exposto ao ar pútrido dessa selva que chamam Amor?

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