10 de dez. de 2010

Margarida medrosa

Ela tinha os olhos vidrados, atentos. Desde menininha, vivia com eles sempre a espera de que algo pudesse a surpreender. Queria estar preparada para tudo. Por isso não os fechava quando dormia. Aprendeu a técnica com os peixes muito cedo, e passou a desconfiar de tudo. A olhar tudo. O medo a deixou cega. Pois de tanto ver, passou a não enxergar direito o que via. Não olhava a vida com profundidade, não os detinha nos detalhes por muito tempo. Medrosa, desde garotinha, fora aprendendo a ficar alerta, todos os sentidos prontos para qualquer alarde do destino. E aguardava. Esperava. E com medo de não estar preparada para o que quer que fosse que a vida estaria disposta a lhe legar, ela ficava alerta. não queria perder nenhuma chance. não queria assustar-se com o desconhecido. E na prontidão do medo, ela parou no tempo. A vida passou e ela não viu. Não se assustou, não se surpreendeu. Não sentiu, não se modificou. Ficou a espera de algo, e esse algo nunca vinha, e se viesse, não seria capaz de reconhecê-lo, pois estava tão a postos para qualquer situação, que ficava na defensiva, rebatia tudo e todos. Defendia-se antes mesmo de ser atacada. E a vida parou de tentar atacá-la. Quando percebeu que nada de novo e de mal poderia cruzar seu caminho, já era tarde demais. Já tinha os pés fincados ao solo, e a pele esverdeada da espera. Era pois uma ordinária margarida, num jardim solitário.

Um comentário:

Tally M. disse...

ow, menina, que texto mais lindo... amei! pura poesia!