22 de mar. de 2011

Obra-prima

Rebeca saiu de casa tão apressada, que não notou a falta do seu telefone celular, que ficara jogado entre as almofadas do sofá. A noite anterior havia sido cheia de explosões sinestésicas, como ela gostava de definir, causadas pela visita de um rapaz moreno, vivaz. Assim, ela acordara ainda extasiada pela volúpia do dia anterior, com a cabeça nas nuvens.
Julgava dizer que estava feliz. Fato significativo, dada às poucas vezes em sua vida, desde a chegada da vida adulta, que ousava proferir tão definição.
Apressada, então, ela saiu de casa, naquele dia chuvoso que contrastava com seus olhos ensolarados. Tinha uma apresentação importante para fazer no emprego, e sentia-se confiante.
Decidiu pegar um taxi, para compensar o tempo perdido. Apertou os passos, com os saltos do sapato desenhando uma sinfonia pela calçada. Viu distante aproximar-se o cobiçado veículo branco. Seu corpo todo aprumou-se, e num movimento sutil ergueu os braços para dar sinal, ao mesmo instante em que um buraco no concreto abriu-se, desmontando aquela gigante entusiasmada.
Com sarcástica harmonia, seu corpo pendeu ao chão, derrubando bolsa, pasta, papéis que planaram no ar, compondo um lindo quadro móvel em câmera lenta. O baque surdo que se seguiu, quando sua cabeça estourou na pedra fria, fez-se ouvir em seu peito.
Em sua casa, o telefone largado soava alto e vibrante, como que compadecendo-se da dor de sua dona.
Na rua, seus olhos ainda abertos, encerravam a pintura, enquanto uma fina tinta vermelha escorria de suas orelhas, assinando a obra.

2 comentários:

Tally M. disse...

ah, que bela escritora vc é!
saudade.
beijo

Blower's Daughter disse...

Arrepiei!!!
Mto bom, Ka, amei o texto!^^
Bjokas, sister!!!