O ano de 2015 foi importante para as causas feministas, para mostrar ao mundo que as mulheres continuam a lutar por seus direitos inalienáveis, por muito mais do que o direito ao voto ou ao de usar calças, que no passado já causavam espanto. A igualdade de gêneros, ou melhor, a dissolução total dos estereótipos de gênero – que categorizam o que homens e mulheres podem e devem fazer, se comportar, comer, vestir, beber, pensar, agir, etc, etc – é causa cada vez mais explícita dos movimentos feministas e é mais do que necessário que seja finalmente conquistado.
Tenho, para mim, que sempre fui feminista, causadora de polêmica desde os primeiros anos na escola. Claro, convivendo e crescendo numa sociedade machista, reproduzia também estereótipos sexistas de vez em quando, quando não tinha consciência destes, mas nunca foram dominantes em minha personalidade (ainda bem!).
Hoje, após muitos anos de tímida militância, venho percebendo a necessidade de assumir cada vez mais posturas críticas, firmes e públicas, sejam perante a um “simples” comentário machista, elogio, senso comum, ou a dogmas defendidos por instituições oficiais. Postura essa que contribuiu para o recente título de “problematizadora treteira” que amigos vêm proferindo. E confesso que estou adorando esse título, pois chegou a hora de parar de engolir sapos e botar a boca no trombone, denunciar, questionar e desvelar práticas opressoras.
Acabo de ler o texto compartilhado pelas redes sociais “Ontem me mataram”, mais um caso de machismo que mata, sobre duas mochileiras argentinas que foram mortas no Equador e a culpabilização da vítima. Duas mulheres que viajavam juntas são alvo de investidas que as julgam e sentenciam: elas estavam viajando sozinhas, elas que se arriscaram, elas que pediram, etc, etc. Claro, porque nós, mulheres, não temos direito a sair conforme nossos quereres, nossos sonhos. Não podemos ser donas de nossas ações! Sujeitas ativas! Não! A sociedade patriarcal nos nega o direito à voz, a pensar, a querer. Até quando precisaremos do respaldo masculino para legitimar nossos atos?
É sobre o direito à voz, a pensar, a ser e existir que gostaria de falar aqui.
Se a mulher sofre alguma violência, logo caem em cima os julgamentos: “também, quem mandou ela sair de noite”, “ela estava com roupa insinuante, pediu para ser estuprada/assediada/constrangida/exposta”, “que ela deve se dar o respeito”.
Dar o respeito, o caralho! Não tenho que me dar o respeito ou me fazer respeitar, o respeito já é meu. Meu corpo me pertence, meus pensamentos me pertencem. Tenho direito às escolhas, a dizer sim ou a dizer não. Não preciso do respaldo masculino para fazer valer minha opinião.
Meu repúdio àqueles homens que pensam estar elogiando uma mulher falando “ah, se você não tivesse namorado, a gente ficava” ou coisas do tipo, como se o fato de você ter (ou pertencer, na cabeça de alguns) um homem como companheiro é a única coisa que impede o cara de ficar com a mulher. Oi? Como assim? A escolha de ficar com um homem deve ser e é da mulher, pois mesmo sem o namorado ela pode não querer ficar com você, entendeu?
Ou mesmo àqueles homens que jogam uma cantada na mulher e ao descobrir que ela já tem namorado, pedem desculpa a ele. Oi? Você deve desculpas a ela e, ao menos que tenha ofendido diretamente o namorado, você não deve prestar contas a ele, como se a mulher fosse uma mercadoria que você cobiçou.
Essas práticas acontecem cotidianamente, porque criou-se a mentalidade patriarcal de que as mulheres não têm vontades, vozes. Não importa a opinião delas. Elas vão ser conduzidas das mãos do pai, homem e proprietário, às mãos do noivo, homem e novo proprietário. Meu mais sincero e honesto repúdio a esse pensamento perverso!
Perverso porque é esse tipo de pensamento que legitima práticas muito mais horrendas e repugnantes. Assédios sexuais, estupros, tráficos de mulheres, só existem porque se acreditam que as mulheres são sujeitas aos quereres dos homens. Parece inofensivo, às vezes, mas não o é.
E uma forma machista, velada em nossa sociedade, tão nociva quanto à violência física sofrida por uma mulher, é o tão aclamado conceito de cavalheirismo. Sim, porque cavalheirismo é machismo.
Cavalheirismo parte do pressuposto que a mulher é submissa ao homem, mais fraca e precisa ser cuidada. Nele, ela não tem voz, não tem independência. E para aqueles que acham que estou exagerando, explico:
Cavalheirismo é machismo por definição, uma vez que a “gentileza” desfrutada da ação de um cavalheiro só se dirige a uma mulher. Um elogio da aparência de uma colega de trabalho pode parecer algo inofensivo, mas e se você pensar que se a colega fosse o colega, haveria o mesmo elogio? Se não, então o elogio foi fruto de uma prática machista. Se sim, então você é uma pessoa gentil, mas cuidado, não é porque é um elogio como “bonito” que toda e qualquer pessoa deve estar aberta a receber. Você já parou para pensar que talvez alguém não goste de ser exposto no ambiente de trabalho, por exemplo? Ou não tenha intimidade com você para receber o elogio sem se sentir constrangido? Claro, depende muito da situação, das circunstâncias. Mas voltando, se você não elogiaria um colega de trabalho pela sua aparência por ele ser homem, porque faria o mesmo a uma mulher? Se a resposta for “ah, mas é mulher...” então você está sendo machista!
Outra situação, cavalheirismo pressupõe que as mulheres são mais fracas e inferiores aos homens, por não conseguirem realizar tarefas como carregar caixas ou não poderem abrir a porta do carro. Novamente, você abriria a porta do carro se fosse um homem, ou carregaria uma caixa pesada se fosse um homem? E quando alguém fala “Algum homem pode carregar a caixa de som, por favor?” está presumindo a priori que as mulheres são mais fracas e que não podem carregar o peso, quando a situação depende dos indivíduos que nelas se inserem.
Por que carregar uma bolsa, abrir a porta da biblioteca, ou coisas do tipo, se eu, mulher, ser humano igual a você, posso fazer isso sozinha? A menos que eu esteja em uma situação que necessite ajuda, como estar com o braço machucado, ou carregando muitas coisas, etc.
Viu como é fácil perceber que a gentileza do cavalheirismo não é tão gentileza assim? Gentileza a praticamos a quem quer que seja, independentemente de ser homem, mulher, anjo, extraterrestre ou um jabuti.
Cavalheirismo coloca que os homens são superiores às mulheres, em qualquer que seja a situação. Por isso ele é tão nocivo quanto a uma forma de machismo escancarada!
Pois ele tira a voz, tira a ação das mulheres, e contribui nesse pensamento de que os homens dominam as mulheres, eles têm direitos sobre elas e podem fazer o que bem entender, desde pagar a conta do restaurante como passar a mão na sua bunda, quando lhe der na telha.
Essa relação desigual que o cavalheirismo coloca é explicita nas danças de salão que utiliza esse termo: cavalheiro e dama. Oras, nelas, o homem, cavalheiro, é quem conduz a dama, a mulher. Ele dita os passos, movimentos e deslocamentos que ela deve seguir. Na dança de salão, a mulher não tem voz. E mesmo se o homem estiver conduzindo “errado”, fora do ritmo, por exemplo, a mulher deve se resignar e aceitar essa condição, afinal, é ele quem manda.
Mas não posso aceitar que a desculpa “na dança de salão é assim”, que o machismo é código do estilo de dança e que não pode ser mudado. Oras, mas como não, se dança é movimento?!
Movimentos pressupõem transformação, ir de um lugar a outro, modificar-se, então porque é que ainda reina esse pensamento machista nas danças de salão? Por que ainda insistem em propagar essa forma opressora, como se ela nada tivesse a ver com a violência de cada dia que as mulheres sofrem cotidianamente? Mulheres são espancadas todos os dias, mulheres são assassinadas, perseguidas!
Meu mais completo repúdio àqueles que defendem o status da dança de salão como sexista, machista, apesar da sociedade ter cada vez mais discutido as questões de gênero “deixemos mudar o futuro depois”, Muitos professores deste estilo pensam assim, e estão espalhados pelas academias e/ou no ensino público da cidade.
Poderia citar inúmeros outros exemplos de situações nas quais as mulheres são oprimidas por pensamentos machistas benevolentes. Inúmeros exemplos pessoais, nos quais fui assediada, constrangida, acuada, diminuída, perseguida... Ou de tantas e tantas mulheres, amigas próximas, conhecidas, que desde pequenas são ensinadas a calar-se, e de tanto calarem criam calos nas pregas vocais, provocados pelas palavras que, mudas, ecoam garganta adentro...
Por Karina Zichelle
Sábado, 5 de março de 2016.
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